domingo, 26 de maio de 2013
sábado, 25 de maio de 2013
sábado, 22 de janeiro de 2011
sábado, 14 de agosto de 2010
segunda-feira, 26 de julho de 2010
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Artigo muito legal
Boletim do NEASIA – CEAM/UnB – No 77 – julho de 2010
Anexo 77 - 02
O PAPEL DO ESQUECIMENTO NA CONSOLIDAÇÃO DA ERA MEIJI JAPONESA
Raphael Romão da Silva Sarmento Mota e Pedro Lara de Arruda*
RESUMO
Este artigo visa analisar as complexas interações mnemônicas no Japão dos
séculos XIX e XX. Para tanto, vale-se de uma retrospectiva histórica, remontando o
período ¨bakufu¨ japonês e a estruturação de hábitos essencialmente agrários. Em
paralelo a essa análise também é retomada a Era Meiji em seus diversos
desdobramentos. São analisados os motivos do abandono da cultura bakufu bem
como sua (re)significação durante a transição para o Japão moderno. Diligencia-se,
portanto, uma reflexão aprofundada acerca do papel da memória na construção da
cultura japonesa contemporânea.
PALAVRAS-CHAVE: Memória; Japão; Era Meiji; Shogunato; Cultura
*Respectivamente: Graduando do Curso de História da USP e mestrando do Curso de
Relações Internacionais da Jawaharlal Nehru University (JNU), New Delhi, Índia.
Boletim do Neasia no 77 – CEAM – UNB – Anexo 02
Julho de 2010 2
O JAPÃO DO SHOGUNATO
O Japão deste período caracteriza-se por ser um país essencialmente rural;
com sua economia baseada na agricultura e mais tarde no comércio. Suas redes de
interações sociais eram complexas e por vezes belgeras – como nos casos de
sucessão ao trono. A política era edificada sobre um governo militar hereditário sui
generis, denominado Shogunato ou Bakufu.
A criação dessa autarquia japonesa sobreveio no final do século XII, período
no qual os samurais assumiram o poder no país – no ano de 1192. Nesses governos
a administração estatal, que até então era realizada pela aristocracia, passou para
os bushi (samurais). Esses guerreiros, por sua vez, dividiam-se em vários clãs, que
passaram a ser responsáveis pelo governo militar do país.
Ao longo de toda essa era de shogunatos existiram três dinastias bakufu
(famlias de chefes militares): Kamakura, Muromachi e Tokugawa (YAMAMURA,
1990). A despeito de algumas diferenças, as três se edificaram sobre o mesmo
alicerce: o shogun como chefe supremo. Essa estrutura centralizada teve como
consequência a minoração do poder dos imperadores e da aristocracia.
Durante essas administrações militares as complexas relações sociais foram
se modificando. O que antes se edificava somente sobre o imperador e sua nobreza,
adquiriu novos atores como os shoguns, os chefes locais (daimyos), os samurais e
muitas outras classes intermediárias. O desmantelamento dessas relações ocorreu
apenas no fim do período Edo japonês – durante a dinastia dos Tokugawa.
Isolado do comércio mundial, os nipônicos viam-se como um arquipélago
auto-suficiente. Não realizavam comércio com nenhum país estrangeiro desde os
problemas com os portugueses ocorridos séculos antes. Mesmo com intensas
pressões externas de países como a Rússia, a Holanda e a Inglaterra o bakufu
japonês não cedeu à abertura dos portos.
Somente após intensas divergências com os Estados Unidos da América é
que se obteve êxito na inclusão do Japão no comércio ultramarino. A abertura dos
portos ocorreu mediante invaso do Comodoro norte-americano Mattew C. Perry e
sua frota em 1854, adentrando nos portos de Edo – atual Tquio - e forando a
aquiescncia das autoridades japonesas (U.S. NAVY, 1904).
Alm das diversas dificuldades no mbito geopoltico, o bakufu atravessava
um perodo de graves turbulncias internas. A principal delas era a sucesso do
dcimo terceiro shogun - afinal decidida a favor de Iemochi contra Yoshinobu
(YAMASHIRO, 1986).
O governo de Iemochi foi marcado por lutas intestinas visando restaurao
do poder do imperador. Diversos cls lutaram por representatividade dentro da Corte
de Kyoto e pela extino do regime shogunal. Com a morte do dcimo quarto
shogun, teve fim tambm o regime militar hereditrio.
Aps diversas disputas entre cls, ao redor do poder e da questo porturia,
subiu ao trono o imperador Meiji. O pequeno soberano, de apenas 14 anos de idade,
iniciou o governo que seria responsvel pela modernizao japonesa e por sua
insero definitiva entre as potncias mundiais. Teve incio uma das fases mais
brilhantes da histria japonesa (YAMASHIRO, 1986).
A ERA MEIJI
A 3 de janeiro de 1868 proclamou-se oficialmente a Restaurao Plena da
Monarquia Japonesa (YAMASHIRO, 1986). A partir daquele momento o pas deixou
de ser uma autarquia rural e passou por uma enorme transformao poltica,
econmica e social que lhe permitiu alcanou o status de grande potncia mundial.
Durante a Era Meiji o imperador e a nobreza, que exerciam somente um
governo de juri, passaram a ter poder de fato. Centralizou-se o poder ao redor do
imperador e aboliu-se o shogunato – regime que vigorou durante cerca de 700 anos
e que s teve uma interrupo durante a Restaurao do Kemmu (1333 – 1335).
Como resposta insurreio monrquica o ex-shogun Yoshinobu Tokugawa
revoltou-se e organizou um contragolpe. Teve incio a guerra civil no Japo, que
mobilizou mais de 120 mil rebeldes. A cruenta revolta teve fim com a desistncia por
parte de Yoshinobu e a consequente resignao das foras rebeldes (JANSEN,
1989).
Em seguida ao fim do embate o governo decidiu pela mudana da capital de
Kyoto para Tkio. Essa mudana teve como objetivo a materializao das
transformaes que tomavam forma no perodo, bem como a ruptura com as antigas
estruturas conservadoras.
Dentre as medidas polticas adotadas pelo imperador Meiji Tenno, visando
essas rupturas, destacam-se a criao do Juramento de Cinco Artigos e a aquisio
das terras dos antigos daimyos. Ambas as medidas foram responsveis pelas
maiores transformaes estruturais da poca. A primeira, o Juramento, tinha como
eixo central a unio das classes sociais e o fim da xenofobia. J a aquisio de
terras foi o meio encontrado para concretizar tais artigos.
A partir daquele momento no existiam mais impedimentos a quaisquer
cidados quanto a escolha de sua profisso, ao casamento, a mudana de
residncia e at mesmo ao uso de sobrenomes (YAMASHIRO, 1986). Tais fatores
foram determinantes para a insero do pas das cerejeiras no mercado mundial e
na consolidao de sua prpria economia interna.
No mbito econmico as mudanas ganharam forma com a extino das
antigas moedas em circulao – o ohban, koban e as moedas de cobre (JANSEN,
1989). Todas substitudas pelo yen. Tal mudana permitiu transaes mais fceis
entre as naes e dentro do prprio pas, solidificando o comrcio.
As indstrias tiveram seu nascimento tambm nesse perodo. O governo
adotou a poltica de fomento a empresas estatais, principalmente nos setores em
que a iniciativa privada ainda no dispunha de recursos para arcar com os
investimentos. Depois de alguns anos entregou-as a iniciativa privada (YAMASHIRO,
1986).
Consonante com esses estmulos o governo criou os ministrios do Interior,
da Agricultura e Comrcio e da Indstria, os quais ficaram responsveis pela
consolidao do estmulo a industrializao e a modernizao japoneses e so
atualmente as bases do capitalismo no Japo.
Tais empresas trouxeram para a terra do Sol Nascente diversos avanos
tecnolgicos, exemplificados nos correios, nas companhias de seguros, nos bancos,
nas ferrovias, no cinema, nos lampies a gs, nas vestimentas e nas formas de
comunicao (YAMASHIRO, 1986).
Entretanto, toda essa metamorfose nipnica teve um alto preo. Prticas
culturais milenares, como o confucionismo e o xintosmo, foram taxadas de
obsoletas e antiquadas. Os antigos escritos literrios foram paulatinamente
substitudos e tudo aquilo que remetia ao perodo shogun foi negligenciado.
A FUNO DO ESQUECIMENTO DAS MEMRIAS
Em funo desse salto tecnolgico e cultural o Japo - num primeiro momento
- abandonou muito de sua cultura milenar. Sucedeu-se uma espcie de averso a
tudo aquilo que tivesse ligao com o passado, como era o caso das roupas tpicas,
dos cortes de cabelo, dos hbitos alimentares e at mesmo das residncias – que
em um primeiro momento migraram para a cidade e depois tiveram seu modo de
construo totalmente alterado.
Em um breve espao de tempo o povo japons abandonou o haiku – forma de
poesia tradicional – para dedicar-se a Cames, Byron, Goethe, Oscar Wilde, Dante e
tantos outros poetas relevantes no mundo ocidental. Sua antiga comunidade
afetiva dissolveu-se num molesto sentimento de (des)identidade.
Tomou forma neste perodo um profundo rompimento com a cultura agrria
vigente at ento. Foram abandonadas muitas das prticas agrcolas e viveu-se um
grande xodo rural. Essa (re)significao implicou em uma srie de omisses
culturais que foram responsveis pela absoro dos hbitos tipicamente ocidentais
por parte dos nipnicos. A antiga vida campesina foi usurpada. O campons deixou
de se concernir com sua vila e passou a ter como metas a produtividade e o lucro.
Sob esse mbito destaca-se a mudana de eixo temporal da sociedade. O
tempo que antes transcorria sobre o kairos, passou ento para o khronos. O tempo
da natureza foi abandonado em detrimento ao tempo da mquina. A pacata vida
camponesa alterou-se e perdeu espao para a vida empresarial.
Sua memria coletiva (HALBWACHS, 1990) foi adaptada a nova concepo
time is money de raciocinar e agir. Sua memria histrica ganhou uma nova
tessitura; apagando suas lendas e heris. A partir de ento s havia interesse nos
novos heris do cinema, mais modernos e civilizados.
Em contrapartida a todos os esquecimentos, encontram-se algumas prticas
de recordao – como o caso do retorno da unidade do Estado com a religio
xintoísta, conhecida como Sai-sei-itchi, que vigorava no Japo antigo, e da
separao do xintoísmo do budismo (YAMASHIRO, 1986).
Todavia esse resgate do campo simblico das memrias tardou a ocorrer.
Pode-se inclusive afirmar que a cultura milenar japonesa s foi verdadeiramente
reconhecida com o fim da II Guerra Mundial. A partir de ento os orientais passaram
a ponderar a influncia ocidental, aproveitando-se de suas qualidades – e no mais
a absorvendo descomedidamente.
Graas aos pontos de contatos entre essas culturas que se pode apreciar a
maravilhosa concepo de vida nipnica contempornea. Suas memrias –
histrica, coletiva e individual – se mesclam de forma equilibrada com o passado:
vendo-o no mais como inimigo antiquado, mas sim como sbio. A tradio voltou a
ter espao na cultura nipnica e hoje uma das guias de sua admirvel civilizao.
Sua cultura constri-se no mais sobre alicerces estrangeiros, mas numa incrvel
mescla do tradicional e moderno - que d como frutos no s cerejas, mas tambm
incrveis contribuies em todas as reas do saber.
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
BERGSTEIN, S. “L’historien et la culture politique”. Vingtime sicle. Revue
d’histoire, no 35, p.69, 1992.
HALBWACHS, M. A memria coletiva. Editora Revista dos Tribunais, So Paulo,
1990. 189 p.
JANSEN, M. B. et al. The cambridge History of Japan. Cambridge University Press,
New York, v. 4, 1989. 828 p.
United States of America Navy Department, Library and Naval War Records.
"Memorandum Concerning Matthew Calbraith Perry, U.S.N.". Disponvel em:
[http://www.history.navy.mil/library/special/perry_openjapan1.htm]. Acesso em:
19/03/2010.
YAMAMURA, K. et al. The cambridge History of Japan. Cambridge University Press,
New York, v. 3, 1990. 711 p.
YAMASHIRO, J. Japo passado e presente. Ibrasa, So Paulo, 1986. 301 p.
YAMASHIRO, J. Pequena histria do Jap o. Revista dos tribunais, So Paulo, 1950.
185 p.
Anexo 77 - 02
O PAPEL DO ESQUECIMENTO NA CONSOLIDAÇÃO DA ERA MEIJI JAPONESA
Raphael Romão da Silva Sarmento Mota e Pedro Lara de Arruda*
RESUMO
Este artigo visa analisar as complexas interações mnemônicas no Japão dos
séculos XIX e XX. Para tanto, vale-se de uma retrospectiva histórica, remontando o
período ¨bakufu¨ japonês e a estruturação de hábitos essencialmente agrários. Em
paralelo a essa análise também é retomada a Era Meiji em seus diversos
desdobramentos. São analisados os motivos do abandono da cultura bakufu bem
como sua (re)significação durante a transição para o Japão moderno. Diligencia-se,
portanto, uma reflexão aprofundada acerca do papel da memória na construção da
cultura japonesa contemporânea.
PALAVRAS-CHAVE: Memória; Japão; Era Meiji; Shogunato; Cultura
*Respectivamente: Graduando do Curso de História da USP e mestrando do Curso de
Relações Internacionais da Jawaharlal Nehru University (JNU), New Delhi, Índia.
Boletim do Neasia no 77 – CEAM – UNB – Anexo 02
Julho de 2010 2
O JAPÃO DO SHOGUNATO
O Japão deste período caracteriza-se por ser um país essencialmente rural;
com sua economia baseada na agricultura e mais tarde no comércio. Suas redes de
interações sociais eram complexas e por vezes belgeras – como nos casos de
sucessão ao trono. A política era edificada sobre um governo militar hereditário sui
generis, denominado Shogunato ou Bakufu.
A criação dessa autarquia japonesa sobreveio no final do século XII, período
no qual os samurais assumiram o poder no país – no ano de 1192. Nesses governos
a administração estatal, que até então era realizada pela aristocracia, passou para
os bushi (samurais). Esses guerreiros, por sua vez, dividiam-se em vários clãs, que
passaram a ser responsáveis pelo governo militar do país.
Ao longo de toda essa era de shogunatos existiram três dinastias bakufu
(famlias de chefes militares): Kamakura, Muromachi e Tokugawa (YAMAMURA,
1990). A despeito de algumas diferenças, as três se edificaram sobre o mesmo
alicerce: o shogun como chefe supremo. Essa estrutura centralizada teve como
consequência a minoração do poder dos imperadores e da aristocracia.
Durante essas administrações militares as complexas relações sociais foram
se modificando. O que antes se edificava somente sobre o imperador e sua nobreza,
adquiriu novos atores como os shoguns, os chefes locais (daimyos), os samurais e
muitas outras classes intermediárias. O desmantelamento dessas relações ocorreu
apenas no fim do período Edo japonês – durante a dinastia dos Tokugawa.
Isolado do comércio mundial, os nipônicos viam-se como um arquipélago
auto-suficiente. Não realizavam comércio com nenhum país estrangeiro desde os
problemas com os portugueses ocorridos séculos antes. Mesmo com intensas
pressões externas de países como a Rússia, a Holanda e a Inglaterra o bakufu
japonês não cedeu à abertura dos portos.
Somente após intensas divergências com os Estados Unidos da América é
que se obteve êxito na inclusão do Japão no comércio ultramarino. A abertura dos
portos ocorreu mediante invaso do Comodoro norte-americano Mattew C. Perry e
sua frota em 1854, adentrando nos portos de Edo – atual Tquio - e forando a
aquiescncia das autoridades japonesas (U.S. NAVY, 1904).
Alm das diversas dificuldades no mbito geopoltico, o bakufu atravessava
um perodo de graves turbulncias internas. A principal delas era a sucesso do
dcimo terceiro shogun - afinal decidida a favor de Iemochi contra Yoshinobu
(YAMASHIRO, 1986).
O governo de Iemochi foi marcado por lutas intestinas visando restaurao
do poder do imperador. Diversos cls lutaram por representatividade dentro da Corte
de Kyoto e pela extino do regime shogunal. Com a morte do dcimo quarto
shogun, teve fim tambm o regime militar hereditrio.
Aps diversas disputas entre cls, ao redor do poder e da questo porturia,
subiu ao trono o imperador Meiji. O pequeno soberano, de apenas 14 anos de idade,
iniciou o governo que seria responsvel pela modernizao japonesa e por sua
insero definitiva entre as potncias mundiais. Teve incio uma das fases mais
brilhantes da histria japonesa (YAMASHIRO, 1986).
A ERA MEIJI
A 3 de janeiro de 1868 proclamou-se oficialmente a Restaurao Plena da
Monarquia Japonesa (YAMASHIRO, 1986). A partir daquele momento o pas deixou
de ser uma autarquia rural e passou por uma enorme transformao poltica,
econmica e social que lhe permitiu alcanou o status de grande potncia mundial.
Durante a Era Meiji o imperador e a nobreza, que exerciam somente um
governo de juri, passaram a ter poder de fato. Centralizou-se o poder ao redor do
imperador e aboliu-se o shogunato – regime que vigorou durante cerca de 700 anos
e que s teve uma interrupo durante a Restaurao do Kemmu (1333 – 1335).
Como resposta insurreio monrquica o ex-shogun Yoshinobu Tokugawa
revoltou-se e organizou um contragolpe. Teve incio a guerra civil no Japo, que
mobilizou mais de 120 mil rebeldes. A cruenta revolta teve fim com a desistncia por
parte de Yoshinobu e a consequente resignao das foras rebeldes (JANSEN,
1989).
Em seguida ao fim do embate o governo decidiu pela mudana da capital de
Kyoto para Tkio. Essa mudana teve como objetivo a materializao das
transformaes que tomavam forma no perodo, bem como a ruptura com as antigas
estruturas conservadoras.
Dentre as medidas polticas adotadas pelo imperador Meiji Tenno, visando
essas rupturas, destacam-se a criao do Juramento de Cinco Artigos e a aquisio
das terras dos antigos daimyos. Ambas as medidas foram responsveis pelas
maiores transformaes estruturais da poca. A primeira, o Juramento, tinha como
eixo central a unio das classes sociais e o fim da xenofobia. J a aquisio de
terras foi o meio encontrado para concretizar tais artigos.
A partir daquele momento no existiam mais impedimentos a quaisquer
cidados quanto a escolha de sua profisso, ao casamento, a mudana de
residncia e at mesmo ao uso de sobrenomes (YAMASHIRO, 1986). Tais fatores
foram determinantes para a insero do pas das cerejeiras no mercado mundial e
na consolidao de sua prpria economia interna.
No mbito econmico as mudanas ganharam forma com a extino das
antigas moedas em circulao – o ohban, koban e as moedas de cobre (JANSEN,
1989). Todas substitudas pelo yen. Tal mudana permitiu transaes mais fceis
entre as naes e dentro do prprio pas, solidificando o comrcio.
As indstrias tiveram seu nascimento tambm nesse perodo. O governo
adotou a poltica de fomento a empresas estatais, principalmente nos setores em
que a iniciativa privada ainda no dispunha de recursos para arcar com os
investimentos. Depois de alguns anos entregou-as a iniciativa privada (YAMASHIRO,
1986).
Consonante com esses estmulos o governo criou os ministrios do Interior,
da Agricultura e Comrcio e da Indstria, os quais ficaram responsveis pela
consolidao do estmulo a industrializao e a modernizao japoneses e so
atualmente as bases do capitalismo no Japo.
Tais empresas trouxeram para a terra do Sol Nascente diversos avanos
tecnolgicos, exemplificados nos correios, nas companhias de seguros, nos bancos,
nas ferrovias, no cinema, nos lampies a gs, nas vestimentas e nas formas de
comunicao (YAMASHIRO, 1986).
Entretanto, toda essa metamorfose nipnica teve um alto preo. Prticas
culturais milenares, como o confucionismo e o xintosmo, foram taxadas de
obsoletas e antiquadas. Os antigos escritos literrios foram paulatinamente
substitudos e tudo aquilo que remetia ao perodo shogun foi negligenciado.
A FUNO DO ESQUECIMENTO DAS MEMRIAS
Em funo desse salto tecnolgico e cultural o Japo - num primeiro momento
- abandonou muito de sua cultura milenar. Sucedeu-se uma espcie de averso a
tudo aquilo que tivesse ligao com o passado, como era o caso das roupas tpicas,
dos cortes de cabelo, dos hbitos alimentares e at mesmo das residncias – que
em um primeiro momento migraram para a cidade e depois tiveram seu modo de
construo totalmente alterado.
Em um breve espao de tempo o povo japons abandonou o haiku – forma de
poesia tradicional – para dedicar-se a Cames, Byron, Goethe, Oscar Wilde, Dante e
tantos outros poetas relevantes no mundo ocidental. Sua antiga comunidade
afetiva dissolveu-se num molesto sentimento de (des)identidade.
Tomou forma neste perodo um profundo rompimento com a cultura agrria
vigente at ento. Foram abandonadas muitas das prticas agrcolas e viveu-se um
grande xodo rural. Essa (re)significao implicou em uma srie de omisses
culturais que foram responsveis pela absoro dos hbitos tipicamente ocidentais
por parte dos nipnicos. A antiga vida campesina foi usurpada. O campons deixou
de se concernir com sua vila e passou a ter como metas a produtividade e o lucro.
Sob esse mbito destaca-se a mudana de eixo temporal da sociedade. O
tempo que antes transcorria sobre o kairos, passou ento para o khronos. O tempo
da natureza foi abandonado em detrimento ao tempo da mquina. A pacata vida
camponesa alterou-se e perdeu espao para a vida empresarial.
Sua memria coletiva (HALBWACHS, 1990) foi adaptada a nova concepo
time is money de raciocinar e agir. Sua memria histrica ganhou uma nova
tessitura; apagando suas lendas e heris. A partir de ento s havia interesse nos
novos heris do cinema, mais modernos e civilizados.
Em contrapartida a todos os esquecimentos, encontram-se algumas prticas
de recordao – como o caso do retorno da unidade do Estado com a religio
xintoísta, conhecida como Sai-sei-itchi, que vigorava no Japo antigo, e da
separao do xintoísmo do budismo (YAMASHIRO, 1986).
Todavia esse resgate do campo simblico das memrias tardou a ocorrer.
Pode-se inclusive afirmar que a cultura milenar japonesa s foi verdadeiramente
reconhecida com o fim da II Guerra Mundial. A partir de ento os orientais passaram
a ponderar a influncia ocidental, aproveitando-se de suas qualidades – e no mais
a absorvendo descomedidamente.
Graas aos pontos de contatos entre essas culturas que se pode apreciar a
maravilhosa concepo de vida nipnica contempornea. Suas memrias –
histrica, coletiva e individual – se mesclam de forma equilibrada com o passado:
vendo-o no mais como inimigo antiquado, mas sim como sbio. A tradio voltou a
ter espao na cultura nipnica e hoje uma das guias de sua admirvel civilizao.
Sua cultura constri-se no mais sobre alicerces estrangeiros, mas numa incrvel
mescla do tradicional e moderno - que d como frutos no s cerejas, mas tambm
incrveis contribuies em todas as reas do saber.
REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS
BERGSTEIN, S. “L’historien et la culture politique”. Vingtime sicle. Revue
d’histoire, no 35, p.69, 1992.
HALBWACHS, M. A memria coletiva. Editora Revista dos Tribunais, So Paulo,
1990. 189 p.
JANSEN, M. B. et al. The cambridge History of Japan. Cambridge University Press,
New York, v. 4, 1989. 828 p.
United States of America Navy Department, Library and Naval War Records.
"Memorandum Concerning Matthew Calbraith Perry, U.S.N.". Disponvel em:
[http://www.history.navy.mil/library/special/perry_openjapan1.htm]. Acesso em:
19/03/2010.
YAMAMURA, K. et al. The cambridge History of Japan. Cambridge University Press,
New York, v. 3, 1990. 711 p.
YAMASHIRO, J. Japo passado e presente. Ibrasa, So Paulo, 1986. 301 p.
YAMASHIRO, J. Pequena histria do Jap o. Revista dos tribunais, So Paulo, 1950.
185 p.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
23/06/2010 09:39 Solidão contente
Recebi por email da Mirella.
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas
Ivan Martins
Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.
O que as mulheres fazem quando estão com elas mesmas
Ivan Martins
Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.
Assinar:
Postagens (Atom)


