quinta-feira, 4 de junho de 2009

24 horas de Lisboa


Alguns dias atrás participei de um tipo de evento que costuma atrair centenas de pessoas cada vez que é realizado aqui em Lisboa: uma maratona fotográfica. É uma ótima oportunidade de conhecer mais a cidade, fazer contatos e encarar os desafios propostos pela organização.

Ao longo da maratona são apresentados temas um tanto quanto subjetivos (um dos quais me recordo era "Isto, mais isto e mais isto") que os participantes devem transformar em fotografias pelas ruas de Lisboa. Foram 24 horas "non-stop", pois a cada três horas era necessário ir até um posto de checagem para bater o ponto, recolher uma nova tarefa e saber o próximo local de encontro.

Descobri que mesmo para quem gosta muito de fotografar esta é uma experiência para lá de extenuante. Mas compensadora.

A maratona começou de manhã em um dos lugares de compras mais estilosos de Lisboa, o Chiado. Por lá pode-se tomar um café na "A Brasileira" perto das estátuas de Fernando Pessoa e Camões, "perder-se" em algumas das melhores livrarias da cidade ou simplesmente praticar o verbo gastar nas lojas de grifes famosas.

A tarde fotografei as ruas largas e retas da baixa pombalina, com seus prédios simétricos e imponentes, renascidos após a tragédia do terremoto que devastou Lisboa em 1755. Na zona da baixa está a cidade multicultural, com os africanos em trajes coloridos, indianos a vender relógios falsificados e um conjunto de índios peruanos a tocar flautas de bambu na secular praça do Rossio.

Na madrugada estava a fotografar a agitação noturna do Bairro Alto quando dei-me conta do quanto é bom poder participar de algo deste gênero sem a paranóia de ser assaltado. Uma centena de pessoas andando de noite com seus equipamentos fotográficos (alguns muito caros por sinal) e nenhum incidente. É óbvio que existem assaltos em Lisboa e as pessoas procuraram andar em grupos e em ruas mais movimentadas. Mas nem de longe lembra a falta de segurança que tomou conta do Brasil.

Imaginem a mesma situação em alguma cidade brasileira. Do jeito que as coisas andam, perder somente a câmera já seria um lucro. Durante a maratona conheci um baiano que está há oito anos em Portugal. Passa por várias dificuldades por aqui, mas não tem dúvida: se pudesse trazia a família inteira para cá. Ele me contou que enviou quase todas as suas economias para a mãe abrir uma loja de confecções em Salvador. Depois de dois assaltos, feitos pela mesma quadrilha, teve que fechar as portas.

A maratona fotográfica terminou na Alfama, um dos bairros mais antigos de Lisboa, conhecido pelas tascas tradicionais e pelas apresentações de fado. Foi lá que recebemos o prêmio pela noite insone, com o nascer do sol sobre o Tejo e a Ponte Vasco da Gama. Fiz a foto, guardei a câmera já quase sem bateria e agradeci a oportunidade de poder dizer de boca cheia e com uma tremenda olheira: Lisboa é linda!

Daniel Escobar é jornalista e mora em Lisboa onde mantém o blog Comboio Lisboa (www.comboiolisboa.com) em parceria com a jornalista Ieda Barros